terça-feira, 29 setembro , 2026

Endividamento das famílias cresce no Brasil mesmo com renda maior

Mesmo com o aumento do emprego e da renda no Brasil, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica. O cenário ocorre em meio ao lançamento do Novo Desenrola Brasil, programa do governo federal que pretende renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas e beneficiar cerca de 20 milhões de pessoas.

A inadimplência (dívidas em atraso) também segue elevada, atingindo 29,6% das famílias. O quadro contrasta com indicadores econômicos positivos, como desemprego em 6,1% e rendimento médio mensal acima de R$ 3.700.

Por que o endividamento continua alto

O avanço do endividamento das famílias brasileiras não está ligado apenas à renda ou ao nível de emprego. Especialistas apontam uma combinação de fatores que pressionam o orçamento doméstico.

Entre os principais motivos estão:

  • Custo de vida elevado
  • Juros altos
  • Uso frequente de crédito
  • Dívidas acumuladas desde a pandemia

Mesmo com mais pessoas empregadas, grande parte da renda é consumida por despesas básicas. Alimentação, moradia e transporte absorvem uma parcela significativa do orçamento, deixando pouca margem para poupança ou quitação de dívidas.

Juros altos e herança da pandemia

Durante a pandemia, o Brasil adotou juros baixos para estimular a economia, o que facilitou o acesso ao crédito. No entanto, a inflação elevada nos anos seguintes levou a um aumento expressivo da taxa básica de juros.

Esse movimento encareceu o crédito e aumentou o peso das dívidas já contraídas. Como resultado, muitas famílias passaram a comprometer uma parcela maior da renda com pagamentos mensais.

Atualmente, o comprometimento da renda com dívidas está próximo de 30%, o maior nível já registrado.

Inflação e perda do poder de compra

Outro fator determinante é a inflação, especialmente nos itens básicos. Mesmo quando o índice geral desacelera, produtos essenciais continuam com preços elevados.

Alimentos como arroz, carnes, leite e feijão registraram altas expressivas nos últimos anos, impactando diretamente o orçamento das famílias.

Com isso:

  • Mais renda é direcionada para despesas essenciais
  • Menos dinheiro sobra para consumo ou quitação de dívidas
  • A sensação de perda de poder de compra aumenta

Pesquisas indicam que a maioria dos brasileiros sente que consegue comprar menos hoje do que há um ano.

Dependência do crédito e comportamento financeiro

Além do cenário econômico, o comportamento financeiro também influencia o endividamento das famílias brasileiras.

O uso recorrente do crédito, especialmente o cartão, é um dos principais fatores. Muitas decisões são baseadas no valor da parcela mensal, sem considerar o custo total da dívida.

Esse padrão contribui para:

  • Acúmulo de pequenas dívidas
  • Perda de controle do orçamento
  • Dependência contínua de crédito

A falta de planejamento e de educação financeira também dificulta a mudança desse cenário.

Renegociação ajuda, mas não resolve sozinha

Programas como o Desenrola Brasil têm efeito importante no curto prazo, ao permitir a renegociação de dívidas com condições mais favoráveis.

No entanto, especialistas alertam que o impacto tende a ser temporário se não houver mudança no comportamento financeiro.

Sem ajuste nos hábitos de consumo e melhor organização do orçamento, o ciclo de endividamento pode se repetir.

Educação financeira como solução de longo prazo

A educação financeira é apontada como um dos principais caminhos para reduzir o endividamento de forma sustentável.

Entre as práticas recomendadas estão:

  • Planejamento do orçamento mensal
  • Controle de gastos
  • Uso consciente do crédito
  • Avaliação do custo total das dívidas

A mudança de comportamento é considerada essencial para evitar que o aumento da renda seja absorvido apenas por despesas e dívidas acumuladas.

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